Sogra de assessor de Renan é "fantasma" em gabinete PDF Imprimir E-mail
Escrito por Eduardo Genro   
Sex, 24 de Abril de 2009 18:19

Líder do PMDB no Senado e principal artífice da vitória de José Sarney (PMDB-AP) para a presidência da Casa, Renan Calheiros (AL) mantém há quase seis anos uma funcionária comissionada fantasma em seu gabinete, com salário bruto de R$ 4.900. Procurado, o senador não quis falar sobre o caso.

Trata-se de Amélia Neli Pizatto, 51, sogra de Douglas de Felice, assessor de imprensa de Renan. A filha de Amélia e mulher de Douglas, Aline Pizatto, também trabalha no Senado.

Na quinta-feira à tarde, a Folha foi à casa de Amélia. Pelo interfone, uma pessoa que se identificou como sua empregada informou que ela estava no banho. Depois, disse que Amélia não estava em casa.

Amélia está contratada pelo gabinete de Renan desde 14 de abril de 2003, num ato assinado pelo então diretor-geral do Senado, Agaciel Maia, demitido após a Folha ter revelado que ele escondeu da Justiça uma casa avaliada em R$ 5 milhões.

Na semana passada, a reportagem ouviu a chefe de gabinete e a secretária de Renan, Paula Frassinetti e Elaine Laus, e outros três funcionários do gabinete do senador. Todos disseram que não conhecem, nunca ouviram falar em Amélia e que ela não trabalha no gabinete. "Amélia? Não tem ninguém com esse nome", disse Paula.

Ela, então, orientou a reportagem a verificar se Amélia não estaria lotada na liderança do PMDB no Senado, função exercida por Renan há dois meses.

A Folha ouviu o chefe de gabinete da liderança, Francisco Chaves, e três funcionários. Os quatro disseram que ela não trabalhava lá. A reportagem entrevistou também os dois chefes de gabinete de Renan anteriores a Paula, Maurício Melo e Edilamar Nóbrega. Os dois disseram que não conhecem nenhuma Amélia e que em seus períodos na chefia de gabinete lá ela não trabalhou.

A Folha falou ainda com Elizabeth Gomes, vizinha e amiga de Amélia há 12 anos. A casa de Elizabeth fica em frente à de Amélia, em Taguatinga, cidade satélite de Brasília. "Ela nunca trabalhou, é dona de casa."

Renan deixou a presidência do Senado em outubro de 2007, após uma sucessão de escândalos. Foi acusado de ter despesas pessoais pagas por um lobista da empreiteira Mendes Júnior, de ter grilado terras e de manter sociedade oculta em duas rádios em Alagoas, entre outros casos.

Após a revelação de que teria escalado um assessor para investigar a vida do senador Demóstenes Torres (DEM-GO), Renan não resistiu à pressão e abandonou o cargo.

Entre o final de 2008 e o começo deste ano, atuou nos bastidores pela candidatura de Sarney. Com a vitória de seu correligionário, recuperou parte do poder. A vitória de Fernando Collor (PTB-AL) sobre o PT para presidir a Comissão de Infraestrutura é atribuída a ele.

Outro lado

A Folha tenta falar com o senador Renan Calheiros (PMDB-AL) e seu assessor de imprensa, Douglas de Felice, desde a quinta-feira passada. Foram dezenas de ligações e recados, inclusive no final de semana.

Douglas não ligou de volta. O senador chegou a atender a reportagem pelo celular na semana passada, mas, ao ser informado do assunto, disse que estava numa reunião, pediu para a reportagem ligar depois e não atendeu mais. A reportagem também tentou falar com Amélia e Aline Pizatto. No caso da primeira, a tentativa foi inclusive pessoalmente, em sua casa. Mas ela mandou avisar, pelo interfone, que não estava em casa.

A reportagem ligou diversas vezes tanto para o gabinete do senador como para a liderança do Senado atrás de Amélia. Os sete funcionários que atenderam os telefonemas, em diferentes turnos e dias, disseram não haver ninguém com aquele nome. Na sexta-feira, a reportagem foi ao gabinete e à liderança. Ela não estava e ninguém a conhecia.

Ontem, a reportagem voltou a falar com alguns dos funcionários, que mantiveram a informação de que não há nenhuma Amélia trabalhando nem na liderança nem no gabinete.

LEONARDO SOUZA
da Folha de S.Paulo, em Brasília

Fonte: (http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u547114.shtml)